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terça-feira, 23 de julho de 2013

Burnout: síndrome afeta mais de 15% dos docentes

Profª Nádia Maria B. Leite
por Daiane Souza

Exaustão emocional, baixa realização profissional, sensação de perda de energia, de fracasso profissional e de esgotamento. Estes são os principais sintomas de pessoas que sofrem da síndrome de Burnout. A pessoa é consumida física e emocionalmente pelo próprio objeto de trabalho. Daí o termo burnout - do inglês burn (queima) e out (para fora, até o fim). A doença acomete profissionais de várias áreas, mas seu diagnóstico é mais freqüente em profissões com altas demandas emocionais e que exigem interações intensas, como é o caso, por exemplo, dos professores e dos profissionais de saúde.

Uma pesquisa realizada pela psicóloga Nádia Maria Beserra Leite, da Universidade de Brasília (UNB), com mais de oito mil professores da educação básica da rede pública na região Centro-Oeste do Brasil revelou que 15,7% dos entrevistados apresentam a síndrome de Burnout, que reflete intenso sofrimento causado por estresse laboral crônico. “A enfermidade acomete principalmente profissionais idealistas e com altas expectativas em relação aos resultados do seu trabalho. Na impossibilidade de alcançá-los, acabam decepcionados consigo mesmos e com a carreira”, explicou. 

De acordo com Nádia, obter 15,7% num universo de oito mil não é desprezível. Caso o índice seja o mesmo em todo o país, por exemplo, então mais de 300 mil professores brasileiros convivem com a síndrome, isso somente no ensino básico. Entre outras conseqüências, tal cenário levaria a um sério comprometimento na educação de milhões de alunos.

Os dados foram revelados por meio de um questionário aplicado no Sistema de Avaliação da Educação Básica, em 2003, mas somente analisado em 2007. O questionário permite identificar a incidência dos três sintomas que caracterizam a síndrome: exaustão emocional, baixa realização profissional e despersonalização. Com relação ao primeiro sintoma, 29,8% dos professores pesquisados apresentaram exaustão emocional em nível considerado crítico. Quanto à baixa realização profissional, a incidência foi de 31,2%, enquanto 14% evidenciaram altos níveis de despersonalização.

Em entrevista ao Jornal do Professor, a psicóloga explica como os professores podem identificar a síndrome e o que devem fazer para tratá-la.

1. O que é a síndrome de Burnout? Como ela se diferencia do estresse?

Burnout é um estado de sofrimento que acomete o trabalhador quando este sente que já não consegue fazer frente aos estressores presentes no seu cotidiano de trabalho. Diferentemente do estresse, que se caracteriza pela luta do organismo no sentido de recobrar o equilíbrio físico e mental, a síndrome de Burnout compreende a desistência dessa luta. Por isso se diz que Burnout é a síndrome da desistência simbólica, pois embora não se ausente fisicamente do seu trabalho, o profissional não consegue se envolver emocionalmente com o que faz.

2. O que leva o professor a desenvolver a síndrome?

Burnout é resultado de longa exposição aos estressores laborais crônicos, sendo mais freqüente em profissões com altas demandas emocionais e que exigem interações intensas, como é o caso, por exemplo, dos professores e dos profissionais de saúde. No caso dos profissionais de saúde, as demandas emocionais estão ligadas à compaixão, à onipotência de poder salvar vidas e à impotência por perdê-las. Já no caso do professor, as demandas são de outra natureza; estão relacionadas ao cuidado, à possibilidade ou não de se estabelecer um vínculo afetivo com o aluno que favoreça o processo de aprendizagem e permita ao professor realizar um bom trabalho.
Essas demandas emocionais, no caso do docente, são inerentes a sua profissão, podendo ser agravadas, por exemplo, por políticas educacionais que aumentem a sobrecarga de trabalho sem a devida contrapartida, ou por condições inadequadas de trabalho, ou pela presença de alunos particularmente difíceis (alunos violentos, com grande déficit de aprendizagem) ou ainda pelo sentimento de injustiça, de não reconhecimento do seu esforço e da importância do seu papel na sociedade.

3. Quais são os principais sintomas dessa síndrome?

Os principais sintomas de Burnout são exaustão emocional, despersonalização e sentimento de baixa realização profissional. A exaustão emocional é uma sensação de perda de energia, de esgotamento, quando o profissional comumente relata que, embora querendo, já não consegue mais se envolver emocionalmente com o seu trabalho. Em decorrência dessa exaustão surgem dois mecanismos reativos, a despersonalização, que é o desenvolvimento de atitudes negativas em relação às pessoas destinatárias do trabalho (cliente, usuário) e o sentimento de baixa realização profissional, ou seja, uma sensação de fracasso profissional, de ineficácia.

4. Quais cuidados os professores podem tomar para evitar a síndrome?

Em tese, qualquer movimento no sentido de reduzir a vulnerabilidade do professor aos estressores do seu cotidiano, particularmente aqueles relacionados com as demandas emocionais, seria uma medida preventiva no sentido de minimizar as possibilidades de o indivíduo vir a desenvolver Burnout. Dessa forma, aplicam-se à prevenção de Burnout, todas as estratégias voltadas para ajudar o indivíduo a lidar com o estresse. Por isso, o apoio dos pares e da direção da organização é tão importante. A direção da escola tem papel fundamental no sentido de minimizar problemas estruturais como, por exemplo, condições de trabalho inadequadas. Com relação aos colegas, a troca de vivências e de problemas comuns favorece a reorganização cognitiva no sentido de o trabalhador rever suas expectativas e encontrar formas possíveis de lidar com suas frustrações, e ideais inalcançáveis.

5. Como os professores podem saber se estão com a síndrome ou não? Tem algum exame específico? Eles devem procurar um psicólogo?

O diagnóstico de Burnout pode ser feito por exame clínico, com profissional da área de saúde (médico, psicólogo) que efetivamente conheça os sintomas da síndrome, e por meio de instrumentos psicológicos elaborados especificamente para fazer essa avaliação. É importante que em ambos os casos a avaliação seja feita por profissional com formação adequada em relação ao fenômeno específico. Entretanto, é admissível que o próprio professor, ao tomar conhecimento dos sintomas de Burnout, identifique com razoável precisão que está vivendo esse processo. Nesse caso, é recomendável que ele busque ajuda psicológica.

6. Uma vez constatada a síndrome, o que os professores podem fazer para melhorar?

É altamente desejável que o profissional com Burnout tenha acesso a atendimento especializado, tanto médico quanto psicológico. Além disso, a participação da direção da organização e dos colegas pode ajudar muito, tanto na prevenção quanto na recuperação. Nos profissionais de saúde, medidas interessantes já vêm ocorrendo: profissionais que trabalham, por exemplo, em UTIs, prontos socorros e áreas mais críticas, por iniciativa própria ou por sugestão da instituição onde trabalham, fazem reuniões periódicas (grupos de reflexão) em que discutem suas angústias, suas limitações, buscam alternativas possíveis para os problemas e se preparam psicologicamente para se alegrar com o sucesso (mesmo que em pequena proporção) como forma de fazer frente ao insucesso freqüente. Meu estudo demonstrou que esse suporte social no trabalho é um grande aliado na redução dos níveis de Burnout.

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segunda-feira, 22 de julho de 2013

Evasão em licenciatura chega a 39%

Quatro em cada dez alunos que iniciam uma graduação voltada à formação de professores não chegam ao fim do curso no Paraná


 
Publicado em 19/07/2013

FELIPPE ANIBAL

Quase 40% dos alunos que iniciam alguma licenciatura no Paraná não chegam a se formar. Todo ano, em média, 15,3% desistem dos cursos, voltados principalmente à formação de professores para a educação básica (ensinos fundamental e médio). Os dados, levantados pelo Instituto Lobo com base no Censo Escolar, revelam a dificuldade que é formar novos docentes e como a sala de aula está longe de ser capaz de atrair esses profissionais.

“Não há estímulo. A carreira não atrai, o salário não atrai. Isso tem impacto direto na qualidade da educação. Em algumas regiões, alunos da educação básica estão há anos sem aulas de ciências por falta de professores”, avalia o presidente do Instituto Lobo, Roberto Leal Lobo.

Nas faculdades, alunos estão desmotivados

No segundo semestre de 2010, Alice Mara de Freitas, hoje com 20 anos, começou a cursar Física na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTPFR) com o nobre sonho de lecionar. Mas as fracas perspectivas salariais a fizeram deixar de lado as fórmulas e experimentos. Desestimulada, abandonou a graduação. “O curso é muito pesado. Então, seria um esforço muito grande para uma remuneração pequena que eu teria depois de formada. Vi que não valeria a pena”, conta. Hoje, Alice cursa Infor­­mática Biomédica na Univer­­sidade Federal do Paraná (UFPR).

Já Andressa Alves de Oli­­veira, de 25 anos, está no último ano de Letras na Universidade Tuiuti do Paraná. Porém, ao sentir na pele a desvalorização a que os professores estão relegados na rede pública, ela tem dúvidas se vai para a sala de aula após se formar. “Durante o estágio, fiquei completamente desiludida com a indisciplina e desrespeito dos alunos. Tive dúvidas se há como mudar isso”, lamentou.

Desinteresse

Metade dos alunos de licenciatura não sabe se vai lecionar

Mesmo para os alunos de licenciatura que não abandonam o curso, a carreira de professor parece não ser tão atrativa. O desinteresse é comprovado na dissertação de mestrado, concluída no ano passado, da pesquisadora Luciana França Leme, da Universidade de São Paulo (USP). Ela ouviu universitários de licenciaturas da instituição e descobriu que quase a metade não quer ou tem sérias dúvidas se vai lecionar após concluir o curso.

Em Física, 47,5% dos universitários não querem ou não sabem se querem ser professores. No curso de Matemática, o índice chega a 45,2%. Em Pedagogia, o problema é um pouco menor: 24,3% dos alunos não sabem ou não querem ir para sala de aula depois da formatura.

“Os resultados indicam que é a profissão [professor de ensino básico] que não tem sido atrativa. É preciso segurar essa metade dos alunos que querem lecionar e criar estímulos para essa parcela que está desmotivada e quer ir para a sala de aula”, diz Luciana.

A fuga da sala de aula não se restringe ao Paraná. Em todos os estados, o índice de evasão é considerado alto. De acordo com a média nacional, 48% dos alunos de licenciatura não chegam a se formar. A cada ano, 19,6% desistem do curso.

O mapeamento nacional mostra índices preocupantes em todas as áreas de conhecimento. Em Física, a taxa de evasão anual é de 26,4% e mais de 60% dos alunos não chegam a terminar o curso. Entre quem cursa literatura estrangeira, 24,5% desistem a cada ano e quase 57% saem da faculdade antes de pegar o diploma.

O desempenho em alguns cursos de instituições paranaenses supera a média do país. Na Universidade Estadual de Londrina (UEL), o índice de evasão – calculado entre 1992 e 2011 – chega a 56% em Matemática e em Física, ambos do período noturno. Os mesmos cursos também obtiveram as maiores taxas na Universidade Estadual de Ponta Grossa: 69% em Matemática e 40% em Física (dados de 2013). A reportagem também consultou outras três universidades públicas do Paraná, mas elas não tinham os dados compilados até o fechamento desta edição.

Sinal vermelho

O governo do Paraná criou um fórum para tratar do problema e tentar reverter a falta de atratividade da licenciatura. A Secretaria da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (Seti) está compilando dados de evasão nas instituições e identificando gargalos para, a partir deste diagnóstico, definir políticas para o setor.

O chefe da assessoria de planejamento de ensino superior da Seti, Décio Sperandio, adianta que as ações terão três focos: os alunos que ainda não ingressaram na licenciatura (para atraí-los a esses cursos); os que já estão cursando (com objetivo de evitar a evasão); e os já formados (para que continuem se capacitando). “Há um certo desinteresse pela licenciatura. Então, vamos desenvolver algumas estratégias para atrair novos professores e mantê-los em sala de aula. Para isso, é preciso valorizar a educação básica e a carreira de professor”, disse.

Baixos salários afugentam futuros docentes ainda no curso

O bolso é um dos fatores que mais espantam os candidatos a professor da educação básica. Para especialistas, a baixa remuneração não só desestimula os alunos de licenciaturas a seguirem nos cursos, como faz com que migrem para outras áreas ou à iniciativa privada. No Paraná, um professor com licenciatura plena recebe remuneração inicial de R$ 1.112 por 20 horas semanais de trabalho, segundo a APP Sindicato.

Para a doutoranda em educação, Luciana França Leme, da Universidade de São Paulo (USP), os governos precisam lidar com o problema de forma integrada, traçando metas de melhoria para curto, médio e longo prazos. “Mas a primeira medida é aumentar o salário. É fazer com que o docente se sinta valorizado. Tem estados que sequer pagam o piso. É inadmissível”, disse.

Para Maria Helena Guariente, diretora de apoio à ação pedagógica da UEL, as universidades têm se mexido para amenizar o problema, por meio da adesão a programas de incentivo à permanência na licenciatura. “O salário desmotiva, então precisamos buscar alternativas de rever esse processo, para dar boa formação aos alunos e evitar que eles deixam a licenciatura”, disse.

Bolsas

Uma dessas alternativas é o Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (Pibid). Lançada em 2009 pelo governo federal, a iniciativa oferta bolsas de R$ 400 a alunos de licenciatura, para desenvolvimento na área. No Paraná, dez instituições públicas aderiram ao projeto. Unidade que mais mantêm bolsas pelo Pibid, a UEL tem 720 alunos beneficiados.

“É muito parecido com a residência médica, porque o bolsista fica em uma escola, vivenciando aquela instituição e desenvolvendo atividades. Os resultados têm sido muito bons”, disse o professor Sérgio Arruda, coordenador do Pibid na UEL.

INFOGRÁFICOS: Índices são preocupantes em todas as áreas





Simpósio Cultura Artística e Conservação de Acervos Coloniais

O Simpósio Cultura Artística e Conservação de Acervos Coloniais será realizado entre os dias 09 e 13 de setembro de 2013 no Centro de Artes, Humanidades e Letras (campus de Cachoeira) da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. A programação do evento conta com a participação de dezesseis conferencistas convidados que apresentarão estudos verticalizados sobre as seguintes áreas temáticas: Arquitetura, Talha, Pintura, Imaginária, Iconografia, Música, Circulação de Estampas e Modelos, Cultura e Sociedade, Conservação e Restauração de Acervos Coloniais.

As inscrições para apresentação de comunicações orais (a serem propostas por mestres, doutorandos e doutores) e pôsteres científicos (a serem propostos por pesquisadores graduandos e graduados) já estão abertas e podem ser feitas até o dia 12 de agosto de 2013 no site  www.ufrb.edu.br/culturaartistica.

Os ouvintes poderão se inscrever entre os dias 15 de julho e 30 de agosto de 2013.

Aulas sobre “O Capital” de Karl Marx, por David Harvey, com legendas em português

Primeira aula sobre “O Capital” de Karl Marx, por David Harvey, com legendas em português (de Portugal). Clicar na barra horizontal inferior em CC e escolher o idioma desejado para a legenda

IV Semana de Educação em Direitos Humanos: podem os subalternos falar?


O I COLÓQUIO BAIANO TEMPOS, ESPAÇOS E REPRESENTAÇÕES: ABORDAGENS GEOGRÁFICAS E HISTÓRICAS

Será realizado na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), campus de Vitória da Conquista, de 14 a 16 de Outubro de 2013, fruto de uma iniciativa conjunta dos Departamentos de História (DH) e de Geografia (DG), de modo a construir um fórum de discussões que possibilite o intercâmbio sistemático entre pesquisadores, professores e estudantes. Por meio deste evento se propõe, entre outros objetivos, debater questões conceituais relativas às noções de Espaço, Tempo, Território, Região, assim como identificar o estágio atual das pesquisas desenvolvidas na Bahia sobre o tema nos campos geográfico e histórico. O evento deverá abrir canais de diálogo e de troca de informações, ideias e abordagens como incentivo à produção acadêmica de caráter interdisciplinar que possibilite a ampliação e o aprofundamento do conhecimento crítico acerca da realidade baiana numa leitura articulada das dimensões históricas e geográficas. A oportunidade da proposta deriva da descoberta de novas fontes e métodos de abordagem e do amadurecimento de linhas de reflexão e de pesquisa que adquirem maior densidade acadêmica e aprofundam as discussões sobre essas categorias, influenciando os estudos produzidos nos séculos XX e no atual, com importantes desdobramentos na produção científica brasileira, como atesta, por exemplo, a recente realização do I Encontro Nacional de Geografia Histórica (Rio de Janeiro, 2012). O I Colóquio Baiano pretende caminhar nessa direção e propiciar aos geógrafos e historiadores baianos a possibilidade de interlocução, além do contato com profissionais conceituados nesse campo de pesquisa em âmbito nacional.

Movimentos Sociais: PORQUE FAREMOS MANIFESTAÇÃO NA VISITA DO PAPA

O Papa Francisco chega hoje ao Brasil.
O seu discurso tem sido de defesa de uma Igreja pobre e para os pobres. Isso é um avanço, mas precisa de coerência prática.
Se de fato o Papa quer uma Igreja que ouça e defenda os pobres precisa posicionar-se sobre os ataques que os mais pobres têm sofrido no país que ele agora visita.
Queremos que o Papa se posicione em relação aos despejos que ameaçam e atingem milhares de famílias por conta das obras da Copa 2014 no Brasil.
Queremos que o Papa se posicione em relação ao extermínio da juventude das periferias pela Polícia Militar em várias partes do país.
Estaremos lá para cobrar esta coerência em relação à defesa dos pobres.

A Manifestação será em APARECIDA DO NORTE (SP)
Quarta-feira (24/7), a partir das 9h30, durante a visita do Papa.

MTST
Movimento Periferia Ativa
Resistência Urbana – Frente Nacional de Movimentos

sábado, 20 de julho de 2013

Em seis meses de legalização, Uruguai não registra mortes de mulheres que abortaram

Ministério da Saúde Pública atesta que 10 em cada mil mulheres
 entre 15 e 44 anos abortam no Uruguai atualmente

Foram realizados 2.550 abortos legais, cerca de 426/ mês.Uruguai é um dos países com taxas de aborto mais baixas do mundo

   
O subsecretário do Ministério da Saúde Pública do Uruguai, Leonel Briozzo, apresentou nesta semana os dados oficiais sobre interrupções voluntárias de gravidez dos primeiros seis meses desde a sua legalização no país. Entre dezembro de 2012 e maio de 2013, não foi registrada a morte de nenhuma mulher que abortou de forma regulamentada no Uruguai.

Foram realizados 2.550 abortos legais, aproximadamente 426 por mês. O Uruguai é um dos países com taxas de aborto mais baixas do mundo. Briozzo explicou que desde o novo marco legal para o aborto, o país os pratica de forma segura, com a consolidação de serviços de saúde para este fim.

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A política pública do governo tem o objetivo de diminuir a prática de abortos voluntários a partir da descriminalização, da educação sexual e reprodutiva, do planejamento familiar e uso de métodos anticoncepcionais, assim como serviços de atendimento integral de saúde sexual e reprodutiva. 
Segundo esses dados, o Ministério da Saúde Pública atesta que 10 em cada mil mulheres entre 15 e 44 anos abortam no Uruguai atualmente. Esses números situam o país entre um dos que têm menores indicadores, ao lado dos estados da Europa Ocidental.

* Originalmente publicado pelo Sul 21


Fonte: Opera Mundi

Adeus, docência

Desvalorização da profissão e más condições de trabalho
 são motivos para a desistência da carreira
Julho/2013
Capa/Evasão | Edição 195


Número cada vez maior de professores que abandonam a profissão piora o quadro de escassez de profissionais na Educação Básica e coloca em questão a capacidade de atração da sala de aula atual

Rodnei Corsini

Baixos salários, insatisfação no trabalho, desprestígio profissional. As condições são velhas conhecidas dos docentes, mas têm se convertido em um fenômeno que torna ainda mais preocupante a escassez de profissionais na Educação Básica: os professores têm deixado a sala de aula para se dedicar a outras áreas, como a iniciativa privada ou a docência no ensino superior.
Até maio deste ano, pediram exoneração 101 professores da rede pública estadual do Mato Grosso, 63 em Sergipe, 18 em Roraima e 16 em Santa Catarina. No Rio de Janeiro, a média anual é de 350 exonerações, segundo a Secretaria de Estado da Educação, sem discernir quantas dessas são a pedido. Mas a União dos Professores Públicos no Estado diz que, apenas nos cinco primeiros meses deste ano, 580 professores abandonaram a carreira (leia mais na página 43). Para completar o quadro, a procura pelas licenciaturas como um todo segue diminuindo, e a falta de interesse pela docência provoca a escassez de profissionais especialmente em disciplinas das ciências exatas e naturais.

Motivos para a evasão
"O motivo unânime para a evasão docente é a desvalorização da profissão e as más condições de trabalho", diz a professora Romélia Mara Alves Souto, do departamento de Matemática e Estatística do programa de Mestrado em Educação da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), em Minas Gerais. Em um estudo com alunos da universidade, Romélia constatou que entre os formados de licenciatura em Matemática entre 2005 e 2010, quase dois terços trabalham como docentes - mas, destes, 45% não pretendem continuar na Educação Básica. A maioria presta concurso para instituições financeiras ou quer se tornar pequeno empresário. Uma boa parte também faz pós-graduação ou vai estudar em outra área para não seguir na docência.

"Para mim, a ferida principal disso tudo é o salário do professor. Os professores estão tendo de brigar para receber o piso", avalia. Romélia também já lecionou na Educação Básica e foi para o ensino superior, sobretudo, por questões salariais. Deu aulas de matemática durante dez anos quando, em 1996, migrou para a docência superior.

O quadro parece se repetir há mais de uma década. Em 1999, Flavinês Rebolo, atualmente professora da pós-graduação em Educação da Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), em Campo Grande (MS), defendeu uma tese de mestrado na Faculdade de Educação da USP em que focou o período de 1990-1995 na rede estadual paulista. Ela identificou que, além dos baixos salários, os fatores que mais contribuíam para a evasão docente eram a insatisfação no trabalho e o desprestígio profissional. "A questão salarial é uma luta de classe dos professores, em que eles têm toda a razão, mas no grupo que entrevistei o sentimento era muito mais de inutilidade que eles viam no trabalho", lembra Flavinês. A desvalorização, pelos próprios alunos e pela comunidade, minava o ideal dos professores de que iriam contribuir para uma sociedade melhor, aponta a pesquisadora.

No princípio de tudo
"Choque de realidade" é o termo usado para esse sentimento entre os professores iniciantes, grupo em que a evasão costuma ser alta. A pedagoga Luciana França Leme se ressente da falta de pesquisas sobre a evasão docente no Brasil, mas avalia que uma das hipóteses para a desistência no começo da carreira é a exposição do professor iniciante às escolas mais vulneráveis. "Não é que o professor não tenha de ir para essas escolas, mas há uma relação entre perfil do alunado e as condições de trabalho docente."

Luciana aponta, ainda, as diferenças da evasão entre as áreas de conhecimento. Ela considera a hipótese de que os professores das áreas de exatas têm mais possibilidade de migrar para outras por conta de uma formação mais específica, que permite a aplicação dos seus conhecimentos em setores como o mercado financeiro. Já entre os licenciados em humanidades, a aplicação dos conhecimentos da graduação em outras áreas profissionais é, normalmente, mais restrita, com exceção do curso geografia, em que há maior possibilidade de os formados trabalharem em empresas de geologia.

Fabio Rodrigues exemplifica a questão. Ele sonhava com a carreira docente quando ingressou na licenciatura de matemática na USP, no final de 2010. Depois de lecionar em cursinhos e, ao longo de três semestres letivos, em estágios obrigatórios na rede estadual, já no último semestre da graduação conseguiu emprego como assistente financeiro em uma empresa de engenharia. Em 2011, migrou para a área de Tecnologia da Informação, onde segue trabalhando como analista e desenvolvedor de sistemas. "Eu já tinha conhecimento sobre desenvolvimento de sistemas porque tive algumas disciplinas da área na USP e fazia alguns cursos por curiosidade e também por hobby", diz.

Na outra ponta, Gisele Teodoro, formada em letras em 2008, migrou das aulas de inglês para o trabalho como telefonista bilíngue em uma empresa de mineração em Araxá. A desvalorização, o baixo salário e o excesso de trabalho fora da sala de aula foram os fatores para ela deixar o magistério. "Tanto o salário e os benefícios quanto a carga de trabalho bem menor são determinantes para que eu, pelo menos por enquanto, não tenha a menor pretensão de voltar para a sala de aula", diz.

Futuro em perspectiva
Professor do Programa de Mestrado em Administração Universitária da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e ex-diretor de Educação Básica Presencial da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Dilvo Ristoff pondera que em todas as profissões há evasão de profissionais. "O IBGE nos mostra que somente um terço dos engenheiros formados, por exemplo, atua como engenheiro e que apenas 75% dos médicos formados exercem a medicina", diz. O professor da UFSC faz a comparação com os professores de Educação Básica para concluir que, se em profissões com salários mais altos a evasão é expressiva, não surpreende, em sua opinião, que a evasão de professores formados seja alta. Além de uma renda maior, Ristoff lista algumas necessidades urgentes na carreira docente no Brasil: perspectiva de carreira, boas condições de trabalho e de formação, respeitabilidade social. "O professor, como todo ser humano, é movido por uma imagem de futuro que constrói para si. Se no seu trabalho ele percebe, dia após dia, que o seu futuro será uma réplica do seu presente - ou seja, no caso, tão ruim quanto o seu presente - ele desanima e, na primeira oportunidade, abandona a profissão", afirma.

A pedagoga Luciana França Leme ressalta que a solução de atratividade para a carreira docente pode ser alcançada a longo prazo, porque ela vai reverberar na questão social e na questão cultural quanto à imagem do professor. Na sua tese de mestrado sobre os ingressantes nas licenciaturas em matemática e física e em pedagogia na USP, os motivos para que os alunos apontassem dúvidas quanto a querer ser docente eram muito semelhantes nos três cursos. A questão salarial era a de maior influência, mas há outras. "Uma das razões mais pontuadas, no escore da pesquisa foi que os alunos seriam professores caso pudessem ingressar em uma escola reconhecida com bom projeto educacional", diz. Ela afirma que medidas pontuais para atrair docentes à Educação Básica não vão resolver o problema justamente pela atratividade ter muitos fatores conjugados.

Em 2010, a Fundação Carlos Chagas elaborou uma pesquisa para investigar a atratividade da carreira docente no Brasil pela ótica de alunos concluintes do ensino médio. Uma das autoras do artigo em que são apresentados os resultados da pesquisa, Patrícia Albieri de Almeida - pesquisadora da Fundação e professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie - afirma que um fator determinante para a baixa atratividade à docência, presente no estudo, é o pouco reconhecimento social da profissão, no sentido de o magistério não ser entendido como uma carreira em que é necessário um conhecimento específico que a diferencia de outras formações. "Até mesmo como reflexo disso muitos estudantes descartam a docência por acharem que não têm as características pessoais para isso. Esse fator aparece até mais forte do que a questão do baixo salário. É muito forte, em nossa sociedade, a ideia de que basta ter dom e vocação para exercer a docência", afirma Patrícia.

Professores em Déficit
Para Mozart Ramos - professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), membro do Conselho Nacional de Educação (CNE) e do conselho de governança do movimento Todos pela Educação -, a baixa atratividade à docência é o maior desafio, hoje, na educação brasileira. "É uma questão estratégica: ter bons alunos egressos do ensino médio para os cursos de licenciatura e, posteriormente, para a carreira do magistério é essencial", afirma. Em sua avaliação, são quatro as principais razões para a pouca atratividade à profissão: baixos salários - a média salarial no Brasil, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2009, citada por Mozart, é de R$ 1,8 mil; falta de plano de carreira e pouca expectativa de crescimento profissional; pouca conexão entre as licenciaturas e a Educação Básica; e más condições de trabalho. "As condições de trabalho são ruins tanto no âmbito das questões de violência, em sala de aula e fora dela, quanto na falta de insumos para que o professor exerça bem suas atividades", diz.

O problema da baixa quantidade de professores formados não é recente, segundo adverte Antonio Ibañez, conselheiro da Câmara de Educação Básica do CNE e professor aposentado do curso de engenharia mecânica da Universidade de Brasília (UnB). Quando era reitor da UnB, em 1991, ele constatou por meio de relatórios o pequeno número de professores licenciados em ciências exatas e naturais pela universidade nos 30 anos anteriores. "Eram poucos mesmo, menos de duas dúzias. Fiquei preocupado de como uma universidade importante tinha formado tão poucos professores para Educação Básica, algo que, constatei depois, era um problema generalizado em outros estados".

O CNE publicou um relatório em maio de 2007 que, por meio de uma simulação, quantificava os professores necessários para atender a todos os alunos que estavam matriculados no segundo ciclo do ensino fundamental e no ensino médio. "A conclusão foi que, sobretudo nas disciplinas mencionadas, faltavam docentes ou, então, as vagas eram preenchidas por professores que não tinham a qualificação específica ou a titulação necessária para a disciplina", diz Ibañez. A estimativa era de que havia demanda total por 106,6 mil professores formados em matemática e 55,2 mil em física e em química. Mas o número de licenciados entre 1990 e 2001 havia sido somente de 55,3 mil (matemática), 7,2 mil (física) e 13,5 mil (química).

A cada dez alunos ingressantes nas licenciaturas em física e em matemática da Universidade de São Paulo (USP), em 2010, cinco não queriam ser professores na Educação Básica ou não estavam certos sobre isso. Os dados são da tese de mestrado da pedagoga Luciana França Leme.

Desinteresse
Entre os licenciados em física no campus de Bauru da Unesp, entre 1991 e 2008, a maior parte chegou a dar aulas no ciclo básico - mas um terço desistiu da profissão. A constatação também é fruto de uma pesquisa de mestrado, de Sérgio Kussuda, sobre a escolha profissional dos licenciados em física na universidade. Entre 377 concluintes da licenciatura em física no período, a pesquisa teve a participação de 52 licenciados que responderam aos questionários. Entre eles, 32, em algum momento da carreira, lecionaram na Educação Básica. Segundo a apresentação da tese de Kussuda, uma das principais conclusões é que a falta de professores de física não se deve somente ao pequeno número de formados, mas, sim, à da evasão docente para outras áreas profissionais.

O estudo de Luciana também apontou que, entre os que se matricularam em pedagogia em 2010, 30% não queriam ou estavam incertos quanto ao ingresso na carreira docente. "A propensão a não ser professor entre os ingressantes em pedagogia é bem menor do que nas licenciaturas em física e matemática, mas não é um percentual desprezível", diz a pedagoga.

A pouca procura por cursos de licenciatura em geral e os baixos índices de formação, a propensão de parte significativa dos ingressantes nesses cursos para não seguir carreira docente e a evasão de jovens professores da Educação Básica são alguns dos principais fatores que, somados, resultam em um quadro de escassez docente. O desafio em atrair professores não é exclusividade do Brasil (veja mais na pág. 50) e, por enquanto, não tem afetado a rede privada de forma importante, embora gere algumas preocupações. O problema se agrava quando se observa que professores lecionam matérias para as quais não têm formação específica. "Dados demonstram que cerca de metade dos professores da Educação Básica são improvisados, isto é, não foram formados para ensinar o que ensinam", diz Dilvo Ristoff.

Vera Placco, professora e coordenadora do programa de pós-graduação em Educação (Psicologia da Educação) da PUC-SP, avalia que muitas das políticas educacionais para valorizar o professor e a educação não têm alcançado resultados concretos e desejados. "É preciso que o professor tenha uma formação continuada que possibilite a ele agir de forma mais atuante na sala de aula e na escola, participando da estruturação do currículo e do projeto político-pedagógico da escola", defende. Para ela, a preparação do professor para trabalhar com diferentes idades deveria ser aprofundada na formação continuada.

Dilvo Ristoff avalia que medidas importantes têm sido tomadas no sentido de valorização da carreira docente e consequente busca pela atratividade à profissão, como o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid), a lei do piso salarial e o Plano Nacional de Formação de Professores da Educação Básica (Parfor), do qual o programa de segunda licenciatura faz parte. "Mas são todas ações insuficientes: algumas são apenas pontuais e outras dependem da superação da crise sistêmica e do conflito de competências na Federação para o seu sucesso." Ao mesmo tempo que enfrentam as questões centrais, as instituições e o governo federal devem criar políticas focadas para formação de professores com ênfase especial nas áreas mais carentes. "Isso, no entanto, não deve significar desincentivo às demais áreas, pois temos carências em todas as disciplinas e em todas as regiões do país", diz.

Paula Louzano, professora da Faculdade de Educação da USP, destaca que a profissionalização do docente implica valorizar a ideia de uma profissão que deve ser ocupada por alguém que estudou devidamente para isso. "Se se concorda com essa ideia, então não dá para termos formação a distância - ninguém fala, por exemplo, em ensino a distância para formação de médicos. Não dá, portanto, para ser uma formação aligeirada." Segundo Paula, hoje 30% dos cursos de formação de professor no Brasil são a distância. Em 2006, eram 17%.

Um programa em estruturação do MEC, Quero ser professor, quero ser cientista, é voltado para as áreas de matemática, química, física e biologia, com estímulos a alunos do ensino médio para seguir carreira na área científica ou na docência na Educação Básica. O programa tem como meta atender 100 mil estudantes: serão incorporados, segundo o MEC, estudantes medalhistas de olimpíadas de matemática e de língua portuguesa, entre outras - não foram claramente definidos os critérios ainda. Professores que participarem do programa terão direito a bolsas e extensão na formação - o Quero ser professor... não pretende condicionar as bolsas e titulações de pós-graduação ao desempenho satisfatório dos estudantes, mas isso poderá ser decidido nos estados e municípios. A meta é oferecer dez mil bolsas Pibid. O MEC não informou se serão novas bolsas, somadas às que já são oferecidas pelo Pibid, ou se parte das bolsas já oferecidas serão destinadas ao programa - segundo a Capes, em 2012 foram oferecidas 40 mil bolsas Pibid para a categoria alunos de licenciatura. "As bolsas para motivar o estudante para ir para as licenciaturas concorrem com uma infinidade de outras bolsas. Por isso, não é mais um recurso tão atrativo", avalia Antonio Ibañez.

O conselheiro do CNE idealiza que a rotina dos professores de Educação Básica tenha similaridades com a dos professores universitários. "Eles têm uma carreira e sabem qual percurso têm para seguir", descreve. E defende que os professores possam fazer pesquisas sobre métodos e resultados da aprendizagem dos alunos, apresentando-os em congressos de Educação Básica, com uma dinâmica similar à que existe na educação superior. Flavinês Rebolo aposta em um cenário diverso do atual. "Um clima de escola com relações interpessoais harmônicas e equilibradas, com apoio mútuo entre os professores, possibilidades de trabalho coletivo, são alguns dos aspectos que podem tornar o trabalho mais satisfatório e prazeroso, e isso com certeza contribui para que o professor se mantenha na profissão. Mas é claro que não depende só de esforços das pessoas, é preciso ter políticas públicas que ofereçam espaços para os trabalhos coletivos e outro tipo de organização do trabalho dentro da escola. Isso, devagarzinho, está acontecendo", diz Flavinês.

A falta de atratividade das licenciaturas
O que pode agravar o diagnóstico do CNE feito em 2007 é que a procura pelas licenciaturas como um todo, no país, segue diminuindo nos últimos anos. Em 2005, foram 1,2 milhão de matriculados. Já em 2010, após uma queda verificada ano a ano, foram 928 mil matrículas. Os números foram processados e apresentados em novembro do ano passado em um artigo de Dilvo Ristoff em coautoria com Lucídio Bianchetti, também professor da UFSC, a partir de dados do Censo da Educação Superior. A queda contrasta com o número crescente de bacharéis e tecnólogos formados. "Os programas existentes da Capes, apesar de serem bons e necessários, não conseguem interferir na falta de atratividade das licenciaturas. As universidades precisam ajudar, redesenhando com coragem os seus projetos pedagógicos de licenciatura, entendendo que nesses cursos há que se preparar o futuro professor e não o bacharel", opina Ristoff.


"Eu já preparava aulas para qualquer disciplina"
William Rodrigues, deixou a docência para voltar à graduação
William Rodrigues se licenciou em história no campus de Assis da Universidade Estadual Paulista em 2010. Entre o último semestre da graduação e o início de 2012, foi professor da rede estadual de São Paulo na categoria "O" - regime de contratação por tempo determinado para atender necessidades temporárias, como substituição de docentes. "Muitas vezes eu dei aulas de matemática, física e inglês. E os alunos sabiam que eu era professor de história e que estava lá tapando um buraco, eles tinham total consciência disso", diz.

De julho a dezembro de 2011, ele fazia uma espécie de plantão, esperando a falta aleatória de algum professor. Chegou, em uma semana, a dar 46 aulas. "Eu já preparava, em casa, aulas que pudessem ser ministradas para qualquer disciplina", diz. No início de 2012, William foi aprovado no concurso de docentes para um posto definitivo na rede estadual paulista. Mas preferiu desistir da carreira de professor e não assumiu o cargo. Na ocasião, estava se mudando para Foz do Iguaçu (PR), onde acabara de se matricular em uma segunda graduação, em relações internacionais, na Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila). Hoje, segue como estudante no segundo ano do curso.  William estava em Assis em maio, em férias do curso de RI, quando conversou por telefone com Educação. O contato com a cidade natal onde se licenciou na Unesp o fez pensar na possibilidade de voltar a lecionar. "Estava com muitas saudades daqui. Nesse último mês, senti muita falta das aulas: história me dá brilho nos olhos, é um curso com o qual eu queria trabalhar", afirma. "Acho que eu até voltaria a dar aula, tenho saudade da sala e do contato com os alunos. Ser professor é muito bom, não é ruim. O que é ruim é o descaso, é sair de casa e não conseguir trabalhar por falta de estrutura."


E na rede particular?
Amábile Pacios, presidente da Federação Nacional das Escolas Particulares (Fenep) e diretora do colégio Dromos, no Distrito Federal, não vê, até o momento, problemas expressivos de escassez de professores na rede particular de Educação Básica. "Mas acho que a rede poderá sofrer impacto no futuro, pois temos cada vez menos pessoas interessadas no magistério", prevê. "Precisamos de política pública, mas falta também reconhecimento da população. Há desprestígio e desqualificação do professor - e, em alguns casos, na particular é mais acentuado: quando, por exemplo, as famílias dão razão ao filho em detrimento de uma posição que um professor tenha assumido em sala de aula", avalia.

João Carlos Martins, diretor-geral do Colégio Renascença, em São Paulo, e consultor educacional na rede particular, atua na gestão de colégios há cerca de 20 anos e também se preocupa com uma possível escassez docente no futuro. "Ainda temos um bom grupo de professores no mercado para educação infantil e educação fundamental 1, mas para fundamental 2 e ensino médio o quadro já está difícil", identifica ele. Ele avalia que muitos licenciados vão da graduação diretamente para a pós-graduação.


GEILC: “ALGUMA COISA ESTÁ DENTRO DA ORDEM”...SCENTIFICISMO E IDEOLOGIA DO 'DESENVOLVIMENTO' NO BRASIL"

Dando continuidade aos eventos do Projeto de Extensão "História, Memória e Ideologia no campo da luta de classes", promovido pelo Grupo de Ideologia e Luta de Classes (GEILC) trata-se de uma palestra intitulada "“ALGUMA COISA ESTÁ DENTRO DA ORDEM”...SCENTIFICISMO E IDEOLOGIA DO 'DESENVOLVIMENTO' NO BRASIL", que será ministrada pela Professora Mestre Tânia Regina Braga Torreão Sá, do Departamento de Ciências Humanas e Letras da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (DCHL/UESB), campus Jequié.
Na oportunidade, a ministrante debaterá o scientificismo à moda brasileira de meados do século XIX e inicio do século XX, os paradoxos inerentes a tal ideologia no processo de "desenvolvimento" brasileiro nos moldes capitalistas. Em especial, problematizará a “velha ordem” (religiosa) dissimulada nas entranhas da “nova ordem” (scientificista) de então, esta vinculada ao sociometabolismo do capital internacional.

Dia 25 de julho de 2013
Horário 19:30 horas
Auditório do Módulo IV - UESB/VC

O evento emitirá certificado de participação.

Confira aqui o fôlder de todo o Projeto de Extensão 

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Ciro Flamarion Santana Cardoso: ao professor e historiador marxista

Virgínia Fontes

A História está de luto: a história do Brasil, a história no Brasil, a história antiga, a história contemporânea, a história que produzimos em cada dia na vida social, a história refletida e pensada por alguns historiadores, a história que se faz nas ruas, a história comprometida com a luta social e com uma reflexão aguda e crítica. Perdemos há 15 dias, no dia 29 de junho de 2013 um dos nossos maiores historiadores, Ciro Flamarion Santana Cardoso.
Raros intelectuais tiveram uma vida como a de Ciro, totalmente dedicada à pesquisa e à docência. Leitor voraz, professor em tempo integral, dedicadíssimo aos cursos e à tarefa dupla e complexa de produzir e socializar conhecimento. Muitos desses cursos, aliás, se tornaram livros. Ciro preparava suas aulas meticulosa e minuciosamente, de tal maneira que os alunos dispunham de textos originais altamente qualificados sobre o tema trabalhado. E isso não apenas em cursos de mestrado ou doutorado, pois Ciro era rigoroso e generoso em todas as aulas que dava, sobretudo na graduação de História, onde atuou durante muitos anos. Não escondia seus novos textos: eles integravam plenamente sua vida docente, sua relação com os alunos, com seus colegas e com o mundo dos historiadores.
Numa época em que a pressão pela quantidade desdenha a qualidade e impede a reflexão crítica, Ciro nos ensinou a necessária dialética entre quantidade e qualidade: realizou uma produção de enormes dimensões, sempre com altíssimo nível de elaboração. Tendo como característica pessoal o profissionalismo e uma enorme exigência de qualidade, Ciro Flamarion não engrossou o coro dos que aderiram a uma história convertida em turismo temporal, em repositório de curiosidades ou descompromissada, na trilha de um mercado que tendeu a esvaziar a reflexão histórica de seus maiores desafios. Navegou na contramão da hiper-especialização e se dedicou a fundo a múltiplas questões, ultrapassando na prática as cercas que instauram quase cinturões de propriedade para certos temas ou períodos históricos.
Jamais atacou novidades, mas criticava duramente os novidadeiros, aqueles que enveredavam pelo primeiro caminho da última moda e, com o afinco dos recém-conversos, orgulham-se de desconhecer completamente o árduo percurso prévio, desqualificando-o de antemão. O meio historiador é sacudido de tempos em tempos por alguma moda que, como incêndio em pradaria, parece garantir um lugar ao sol para os mais rápidos aderentes. Para os que não sabem, o âmbito dos historiadores é uma área bastante competitiva em termos de carreira e de reconhecimento, e tais novidades, em geral aportadas do exterior por mãos bem treinadas, tornam-se rapidamente jargão repetido, até seu completo esgotamento. Entre o início gritante e a decadência silenciosa há tempo para consolidar algumas carreiras.
O mundinho dos historiadores, como em qualquer disciplina, convive com diferenças e divergências e elas são – ou deveriam ser – algo de corriqueiro. Como lembra Pierre Bourdieu – de quem Ciro Flamarion, aliás, não foi um adepto – a principal linha de fratura entre as ciências sociais é a que separa os que consideram que a sociedade é cindida em classes e os que consideram essa cisão inexistente. A mera adesão a um dos lados dessa permanente luta não garante por si só um trabalho de pesquisa melhor, mas define lados em permanente conflito, dentro e fora das universidades. O abandono das chamadas “grandes teorias”, que partem das grandes fraturas sociais estruturais – e suas razões – tende a gerar textos menos comprometidos com as questões sociais cruciais. Por vezes, gera pesquisas refinadas, de longo fôlego, com profundas marcas de erudição. Mas exatamente pelo aparente desinteresse e descompromisso com a luta que atravessa a vida social e demarca o próprio campo científico, também abre a brecha para que o compromisso se limite aos valores de troca dominantes, ou seja, o mercado (mercado editorial, mídia, etc.) e com seu equivalente interno ao campo, o “mercado do reconhecimento inter-pares” (publicações, viagens, convites, bolsas, etc.). Ciro tinha posição, não perseguia seus opositores e, ao contrário, abria intensos e fecundos debates. Não se pode dizer o mesmo com relação a muitas outras tendências teóricas que eliminam sem escrúpulos qualquer odor de marxismo, mesmo se discreto...
Essa postura de Ciro Flamarion se refletia também na sua atuação institucional. Defendendo uma profissão historiadora na qual seus trabalhadores sejam dignamente remunerados e tenham acesso pleno às condições de trabalho, ele procurou sempre estabelecer parâmetros igualitários para que isso pudesse ocorrer, refutando as propostas que, apoiadas imediatamente pelos mais rápidos e preocupados apenas consigo mesmos, desconsideram a necessidade de elaborar projetos coletivos, de assegurar direitos a todos. Participei de várias comissões na UFF juntamente com Ciro Flamarion e muito aprendi: não se tratava apenas de premiar os mais aptos, como muitas vezes era imposto tanto de cima para baixo, quanto ecoava nos corredores universitários em lutas intestinas ferrenhas. Admitia a existência de bons trabalhos em qualquer área teórica, mas não da forma apressada e exacerbadamente competitiva como alguns queriam. Envolvia considerar o conjunto das atividades docentes (ensino, pesquisa, extensão), e não apenas um parâmetro exclusivo, imediatamente mensurável.
Ciro defendia o estabelecimento de verdadeiras políticas, com a definição de critérios comuns, dignos e abertos, para que todos pudessem atingir a formação necessária, garantir uma docência de alto nível e realizar uma produção bibliográfica condizente. É preciso lembrar que, sob qualquer critério, Ciro Flamarion era sempre o mais produtivo. Jamais aceitou privilégios ou exigiu tratamento diferenciado – ao contrário, exercitou na prática de sua própria existência os critérios que defendia. Foi uma pessoa rara.
Se Ciro tinha clareza do lado em que estava nesse complexo conflito que atravessa nossa vida social e o mundo dos historiadores, sua principal atuação política ocorria no cotidiano do trabalho docente e intelectual. Era um leitor atento e arguto de todas as tendências historiográficas e teóricas e nunca se limitou a estudar apenas autores de sua própria convicção. Por isso, como apenas grandes pensadores e exímios profissionais são capazes, Ciro não só cultivou como afiou o viés crítico e o debate teórico permanente, sólido e rigoroso, enfrentando um a um todos os autores e modismos que se abateram sobre a história e nunca o fez de maneira aligeirada. Procurava compreender o que de fato havia de novo, descartar o efêmero e enfrentar os verdadeiros problemas intelectuais, teóricos e historiográficos, sem perder de vista que ser historiador não deve ser nem uma carreira burocrática nem uma louca corrida pelos lucros mercantis: ser historiador envolve enorme compromisso com a emancipação humana em todos os âmbitos da existência, o que envolve a capacidade de pensar crítica e livremente e a exigência da produção de relações humanas pautadas na igualdade social.
Enfrentou claramente os modismos, sempre produzindo sólidos artigos combatentes, que nunca se limitaram a comentários passageiros, ajudando a consolidar uma tradição historiadora crítica e exigente. Como raros, Ciro Flamarion sabia que não era o período estudado o que definia a contribuição dos historiadores, mas a questão enfrentada, assim como a forma de abordá-la; era a interrogação que presidia a pesquisa, gestada a partir de uma densa básica teórica e de profundo estudo historiográfico, quem abria a possibilidade do novo. E o novo, na maioria dos casos em que é fundamental, não é novidadeiro.
Ciro Flamarion foi um intelectual marxista em sentido pleno: era um estudioso da teoria, um pesquisador no âmbito do empírico, do teórico e do historiográfico, um elaborador de profundas reflexões históricas, teóricas e metodológicas. Não era um marxista de circunstância e, por conhecer a fundo as múltiplas teorias históricas, sabia pertinentemente que nenhum outro ambiente teórico abria tantas possibilidades de explicação e de compreensão do mundo, em diversas áreas do conhecimento. Melhor do que ninguém, Ciro sabia que a história é um processo complexo e que descortinar as grandes contradições e questões, tarefa central dos historiadores, é uma das condições da luta social. Desconhecer a causa teórica que Ciro abraçou toda a sua vida falsifica sua biografia e sua coerência como historiador, como professor e como pessoa.
Além do historiador, do intelectual marxista e combativo, perdemos um homem raro. Ciro foi um homem de uma cultura e erudição raras, que gostava e conhecia bem literatura (ele adorava ficção científica), música, cinema, ópera, gastronomia. De enorme sensibilidade, lembro-me de pequeno episódio que me impactou. Almoçávamos juntos, como fizemos algumas vezes, e conversávamos sobre literatura. Ele comentou que havia relido o conto – integral – de Andersen, A pequena sereia. Comentei que esse conto marcara enormemente minha infância. A sereiazinha, para adequar-se a um ser humano por quem se apaixonara, aceita uma vida inteira de enormes sacrifícios. Ela deveria ser amada por ele e, ainda assim, caminharia sobre agulhas. Se o amor dele lhe faltasse, ela se converteria em espuma do mar. Lembro-me, criança, de me deparar com o sentido da injustiça. Mais tarde vim a perceber que o conto traduzia para mim, de maneira refinada e extremamente dolorosa, o percurso socialmente sugerido para as mulheres. Ciro estava com os olhos cheios d'água e comentou que a cada vez que lia ou pensava nesse conto, ficava embargado de emoção.
Ciro gostava de boas coisas. Gourmet (conhecedor de gastronomia) mas, sobretudo gourmand (guloso), trocava receitas e dicas de culinária e de vinhos; reconhecia uma cantora de ópera, ouvindo a melodia que tocava em minha casa, através do telefone no qual falávamos. Gostava de uma boa conversa. Quando vivi no exterior, era uma honra e uma felicidade receber suas cartas, pois nelas reencontrava Ciro Flamarion na íntegra: suas cartas me explicavam a situação brasileira, as condições da universidade, os grandes temas então em voga por aqui, me traziam suas novas pesquisas e suas interrogações.
Este homem enfrentou, com um senso de humor e uma leveza por vezes até desconcertantes, enormes desafios de saúde. Apesar do desconforto de muitas das operações a que foi submetido e que afinal resultaram na perda da visão de um dos olhos, Ciro ficou pouquíssimo tempo afastado das salas de aula. Suas licenças médicas duravam o tempo mínimo necessário para o restabelecimento e a convalescença ocorria em paralelo à sua plena atividade docente. Não se queixava e, ao contrário, fazia piadas e brincadeiras com o seu sofrimento. Dizia, por exemplo, que havia se tornado, de fato, um semiótico... Fui visitá-lo após uma dessas cirurgias e ele, mal conseguindo falar, me fazia rir.
Tive a sorte de conviver com Ciro como colega de Departamento, como mestre e como amigo, com a proximidade possível com um intelectual daquele porte. Sua perda é enorme para todos os que têm um sentido de profundo compromisso com a história que se vive, com a que procuramos construir e com a história que precisamos escrever. Ciro, você faz muita falta.