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sexta-feira, 4 de abril de 2014

Nota pública acerca da resistência popular contra a ditadura militar na Maré

As grandes mídias executaram nos últimos dias suas rotinas promocionais e divulgaram o suposto grande sucesso da invasão militar para “pacificar” a Maré. O governador Cabral veio a público constar: “Hoje foi, sem dúvida, um dia histórico.” e o secretário de segurança pública Beltrame afirmou: “Mais uma vez, fomos muito bem. Vamos entregar o terreno a quem merece e é dono, que é a população. Tudo correu tranquilamente. Para nós não foi surpresa, por que todas as ocupações têm sido assim.”
 
Contrariam radicalmente este espetáculo midiático recorrentes relatos sobre violações e abusos pelo lado dos policiais durante a invasão. Policiais entrando nas casas sem mandado; com “toca ninja” ameaçando moradores de morte; depredando bens e roubando eletrodomésticos sem nota fiscal; tratando moradores com violência verbal e apontando armas de fuzil para os seus rostos; constrangendo e agredindo crianças como no caso de policiais mandarem-nas deitar e em seguida pisarem em suas cabeças; prisão coletiva de menores que protestaram por causa de morte de um adolescente, que foram levadas à delegacia em caminhão da Polícia Militar; constrangimento e prisão de idosos; invasão de casa com moradora que estava sozinha e diante da presença ameaçadora da polícia se viu forçada de correr para a rua vestida apenas com roupa íntima.
 
A grande imprensa divulgou imagens de moradores presos acusando-os de serem traficantes que em seguida foram liberados por não terem nenhum envolvimento e serem inocentes (sem que houvesse uma retratação). Nos casos de mortos e feridos, tem sido difícil apurar ao certo, pois há dificuldade de checar informações, mas temos a confirmação de um jovem de 15 anos morto sem divulgação da causa de sua morte, um jovem de 18 anos baleado e que veio a falecer, e de mais dois adolescentes baleados.
 
Nós, moradores que estamos envolvidos com a luta pelos direitos humanos fundamentais dos cidadãos que vivem em favelas, estamos colocando esforços para denunciar estes muitos casos de abuso que estão acontecendo com nossos familiares e vizinhos. A presença de diversos grupos de defensores de direitos humanos no domingo, coletivos de advogados, a Comissão de Direitos Humanos da OAB, o NIAC (UFRJ), o Coletivo Tempo de Resistência, a Comissão de Direitos Humanos da ALERJ, foi uma contribuição importante para a luta e resistência dos moradores. Não apenas por atuar em campo fiscalizando o trabalho da polícia e registrando ocorrência de abusos, mas também para testemunhar as dificuldades que a organização popular sofre diante da opressão militar, que não se inibiu em manifestar intimidação contra nós nem diante da presença dos advogados.
 
Nós, que estamos articulados em organizações populares e empenhados a lutar contra o Estado opressor, estamos sofrendo perseguição e intimidação. Entre outros, uma blazer branca com dois policiais seguiu e filmou de forma intimidadora a Comissão de Direitos Humanos da OAB que estava fiscalizando a atuação ilegal da polícia, e um helicóptero ficou dando várias voltas onde estavam os membros da Comissão. Entendemos que essa opressão é para coibir nossa atuação de resistência e impedir que façamos mobilizações e denúncia dos casos de abuso e violência praticados pela polícia.
 
Esta invasão foi tão pouco tranquila como as outras invasões em favelas do Rio de Janeiro. Sabemos que este é só o começo de toda uma onda de opressão através da política de extermínio e militarização nas favelas. É imperativo o fortalecimento da resistência. Moradores de favelas, movimentos sociais, defensores de direitos humanos e todas e todos que lutam por uma sociedade justa e igualitária, juntem-se a luta de resistência na Maré e em todas as favelas! Os opressores não calarão as nossas vozes.
 
Favela resiste. Viva favela!
 
Assinam esta nota (Caso deseje apoiar, entre em contato pelo email: marevive@riseup.net):
 
Advogados Ativistas (SP)
Centro de Assessoria Jurídica Popular Mariana Criola
Cidadela – Arte, Cultura e Cidadania
Cineclube Beco do Rato
Cineclube Mate Com Angu
Círculo Palmarino
Coletivo Tempo de Resistência
Coletivo Laboratório de Direitos Humanos de Manguinhos
Comissão de Direitos Humanos da OAB
Fórum Popular de Apoio Mútuo
Federação Anarquista do Rio de Janeiro
Justiça Global
Marcha Mundial das Mulheres
Movimento de Organização de Base
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra
Núcleo de Assessoria Jurídica Popular Luiza Nahin
Núcleo Interdisciplinar de Ações para a Cidadania – Niac/UFRJ
Ocupa Alemão
Ocupa Lapa
Organização Anarquista Terra e Liberdade
Organização Popular
Quilombo Xis Ação Cultural Comunitária
Reaja ou Sera Morto, Reaja ou Sera Morta
Rede de Comunidades e Movimentos contra Violência
Rede Nacional de Advogados Populares – Renap-RJ
Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio de Janeiro
Sindicato dos Servidores do Colégio Pedro II – Sindiscop

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Especuladores recompensam quem os defenda no meio acadêmico

Uma reportagem do New York Times revela o financiamento de Wall Street a professores universitários que nos últimos anos assumiram sua defesa.


O jornal estadunidense teve acesso às ligações financeiras que unem alguns dos maiores especuladores de Wall Street ao professor de finanças da Universidade de Houston, Craig Pirrong. O professor interveio diversas vezes desde 2006 em cartas às autoridades reguladoras federais e até depôs na Câmara dos Representantes dos EUA, invocando a sua autoridade acadêmica para provar a ausência de responsabilidade dos especuladores nos picos registados nos preços do petróleo e outras matérias-primas e produtos alimentares, numa altura em que a regulação discutia impor mais restrições às operações dos bancos nesta área, na sequência da crise financeira.

Afinal, o professor Pirrong, cujos trabalhos eram citados nas ações judiciais interpostas por institiuções financeiras para bloquear as restrições à especulação financeira, era ao mesmo tempo pago como consultor para uma das principais partes do processo, a Associação Internacional de Swaps e Derivados. Segundo o New York Times, embora Pirrong se apresentasse apenas como professor universitário, nos últimos anos foi pago pela bolsa de Chicago, o Royal Bank of Scotland e uma série de empresas que especulam nos mercados da energia.

Questionado sobre a origem dos seus ganhos fora do meio acadêmico, Pirrong terá respondido apenas que “isso é entre mim e o fisco”. Mas ele não é caso único. O mesmo jornal aponta o professor da Universidade do Illinois Scott Irwin, um dos acadêmicos mais citados em favor dos benefícios da especulação para a formação de preços nos mercados agrícolas, que é ao mesmo tempo consultor de uma das empresas que trabalha com bancos de investimento e fundos especulativos no mercado de matérias-primas. A sua universidade também recebe doações generosas quer da bolsa de Chicago quer de outros fundos que intervêm no mercado especulativo, que pagam bolsas de estudo, conferências e até a construção de um laboratório em tudo semelhante às salas de mercado bolsista.

Quando em 2008 o preço da gasolina subiu acima dos 4 dólares por galão nos EUA, o Congresso norte-americano ameaçou com a introdução de limites à especulação nos mercados do petróleo. “É uma caça às bruxas”, indignou-se Craig Pirrong em múltiplos artigos, incluindo no Wall Street Journal, desdobrando-se em conferências e ocupando lugares em comissões de aconselhamento na matéria.

Por seu lado, os ensaios e opiniões de Scott Irwing foram promovidos para aparecerem em publicações influentes pelo próprio departamento de relações públicas da bolsa de Chicago, sendo frequente encontrar vídeos e entrevistas com este professor no site da Chicago Mercantile Exchange.

Mas o dinheiro dos especuladores não corre apenas diretamente para o bolso destes professores universitários. Para aumentar a sua notoriedade, também financiam revistas e sites na internet que promovem as figuras do meio acadêmico mais favoráveis aos seus interesses. Ambos os envolvidos negam que o seu trabalho seja influenciado pelo dinheiro que recebem dos especuladores, mas o tema ressurge no debate público numa altura em que os reguladores discutem novos limites à especulação, por verificarem que ela pode contribuir não apenas para prejudicar os consumidores, mas também para provocar a escassez de comida, como se viu na crise alimentar do final da última década.

Créditos da foto: Oxfam NZ/Flickr (Esquerda.Net)

Fonte: Carta Maior

terça-feira, 1 de abril de 2014

Morre aos 90 anos o historiador francês Jacques Le Goff

Da AFP
01/04/2014

Le Goff foi um dos idealizadores da corrente 'Nova História'.

Historiador era especializado em Idade Média.

O historiador francês especializado na Idade Média Jacques Le Goff, um dos idealizadores da corrente conhecida como "Nova História", faleceu nesta terça-feira (1) em Paris aos 90 anos.

Le Goff dedicou boa parte de sua longa carreira à antropologia medieval, disciplina que enriqueceu ao abordar todos os aspectos da vida em sociedade.

Dentro da tradição dos grandes historiadores franceses, não hesitava em sair de sua especialidade para opinar sobre temas da atualidade.

Nascido em 1º de janeiro de 1924, este brilhante historiador sucedeu em 1972 Fernand Braudel na direção da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais.

A partir dos anos 70 foi um dos pais do movimento "Nova História", com uma reflexão sobre a profissão do historiador em ensaios como "Faire de l'histoire" (1986, Fazer História, com Pierre Nora) ou "Histoire et mémoire" (História e memória, 1988).

Fonte: G1

A ditadura brasileira e a luta de classes no campo da memória


José Rubens Mascarenhas de Almeida


Como historiador e materialista, não me esquivo de abordar a memória como elemento social e não como mero aporte biológico ou psíquico. Aliás, um sociólogo de nome Maurice Halbwachs já chamava atenção para o caráter coletivo e social da memória, entre o final do século XIX e início do XX, num livro despretensioso denominado Memória Coletiva. Nele, evidenciava que, no campo da memória, o individual se desenhava no coletivo. Mas, Halbwachs abordava a construção da memória sem dar conta das contradições sociais que permeiam a esfera social. Ao não primar pelo conflito de classes, sua teoria naturalizava as relações sociais, apresentando a realidade como algo inevitável, dado, posto.

Neste dia (31/03) em que se (des) comemora (enquanto antítese de desmemoria) o Golpe Militar no Brasil, quero fazer uma leitura da memória não como algo relacionado meramente ao passado. Aliás, a memória, recorrendo ao passado, é lida no presente da rememoração. Ou seja, passa pelos olhos do presente. Quando rememoramos reminiscências, estamos revisitando o passado – distante ou recente –, mas com um olhar de revisita, retorno a momentos e lugares vividos.

Elizabeth Jelin[i], socióloga argentina, afirma que as ditaduras na América Latina tratam de um passado recente, porque mui presente entre nós (2012, p. 10). A memória que quero evidenciar ressalta processos autoritários e não só os que dizem respeito à ditadura militar desferida contra os trabalhadores brasileiros e que hoje é rememorada em seu meio século de deflagração. A memória do autoritarismo que aqui se revisita faz parte da história própria dos povos oprimidos da América Latina desde a chegada dos conquistadores europeus, passando pelos caudilhos ou coronéis. Esse autoritarismo congênito, socialmente forjado, nasce com a conquista do continente americano e grassa pela formação colonial e se estendeu à republica, chegando até os dias atuais, contrariando os discursos floridos e maquiados reverberados pela democracia burguesa.

Registrando de soslaio a barbárie instalada aqui pelos conquistadores e colonizadores europeus, que também eram cristãos, mercantilistas, brancos e de cultura ocidental, a forma de governo instituída no pós-independência (1822) no Brasil foi marcada por um profundo autoritarismo. Às vezes civil, às vezes militar. Noutras, civil-militar.

Tendo como referência Le Goff quando afirma que o passado é, “ao mesmo tempo, passado e presente” (p. 41)[ii], podemos afirmar, sem medo de errar, que memória não diz respeito apenas ao passado, é também expressão do presente, eivada de mensagem ideológica, a refletir as diferentes forças que se digladiam na sociedade pelo domínio social. E, sendo presente, aponta para o futuro, por isto também campo da luta de classes. Assim, memória é elemento construído socialmente, não isento das contraditórias relações sociais que envolvem os sujeitos – e (as) sujeitados – dos processos sociais, eivados que são de contradições: de classe, sexistas, racistas, etc. Essas interações constituem a dinâmica da produção da memória.


Entulho autoritário

Nesse sentido, pressionado pelas contradições sociais e pela ideologia dominante, o campo da memória acaba por refletir as lutas sociais que aí também explodem como reflexo das lutas de classes. Exemplo disso, a atual criminalização das manifestações políticas e sociais que ganharam corpo a partir de junho de 2013 no Brasil evidenciou também que os aparelhos repressivos do “Estado democrático” atuam nos mesmos moldes da ditadura. Isto é memória, mas também é história.

Esse “passado que não quer passar” (Calveiro)[iii] aqui no Brasil é marcado pela persistência de boa parte do entulho autoritário da ditadura militar de 1964 que, governo após governo, vem sido varrido para debaixo do tapete. Mesmo a Comissão Nacional da Verdade, trata-se de uma comissão de “meia-verdade”, pelos poderes a ela outorgados e por pautar-se na Lei da Anistia (Lei nº 11.961/2009, regulamentada pelo do Decreto nº 6.893/2009), que tem por pressuposto as prerrogativas militares da ditadura.

Outro entulho autoritário é a Polícia Militar. Com as atuais características, é fruto do Golpe Militar de 1964, fundada na concepção de inimigo interno. Á época, justificava-se como instrumento de combate ao comunismo, antonomásia usada para a repressão a todo e qualquer opositor ao regime, atendendo às prerrogativas da ideologia da Doutrina de Segurança Nacional[iv]. Ainda hoje a Polícia Militar brasileira continua atuando como se a ditadura ainda estivesse vívida – e acredito que está, apesar da máscara ideológica que a recobre –, mostrando-se um instrumento anacrônico de um modelo idem de segurança pública cuja característica é inerente àquele período obscuro de nossa história. Vejamos. A Folha de S.P acaba de publicar informação dando conta de que, atualmente, existem 16 projetos de criminalização das manifestações populares[v].

Matar suspeitos pobres sem julgamento é rotina na polícia brasileira. Levantamento feito pela BBC Brasil, a PM do Rio matou seis vezes mais pessoas durante ações de combate ao crime do que seus pares da Polícia Civil em São Paulo no ano de 2011[vi]. Dados de 16/07/2007 dão conta de que a polícia do Rio matava 41 civis por cada policial morto[vii]. Nesse sentido, quando se fala em “guerra” interna, isso não passa de um temendo jargão ideologizado. A guerra em vigor é a travada no âmbito da luta de classes, basta que se comprove de que classe social é formado o grande contingente de vítimas: os pobres. Os fatos são tão gritantes que, em 30/05/2012, o Conselho da ONU sugeriu o fim da Polícia Militar no Brasil, recomendação apresentada pela Dinamarca, alegando execuções sumárias desrespeito aos direitos humanos[viii]. “Dos filhos deste solo és... mãe gentil?”

A memória e a história desses últimos meio século registraram que a gentileza dessa mãe faltou a tantos filhos torturados, desaparecidos, assassinados cruelmente... Alguns deles bem próximos de nós (todos próximos e identificados pela luta por uma sociedade justa ou, no mínimo, menos injusta), como Dinaelza Santana Coqueiro (conquistense morta na Guerrilha do Araguaia) e Péricles Gusmão Régis, que foi morto nas dependências do Nono Batalhão de Polícia Militar (Vitória da Conquista); Aderval Alves Coqueiro (de Aracatu); Rosalindo de Souza (de Caldeirão Grande); Vandique Reidner Pereira Coqueiro (de Boa Nova); Vitorino Alves Moitinho (de Poções); e tantos outros, só para citar alguns mais próximos, geograficamente, de nós (Bahia).

Outros, por outro lado, como defensores da ignominia, da opressão, como também registram a memória e a história: Amílcar Lobo, médico psiquiatra que emprestou seus serviços à “tortura científica”; Dalmar Caribé, à época da ditadura Cabo do Exército e torturador que matou friamente Carlos Lamarca[ix]; Cabo Anselmo, biografia degradante e perversa criada pelo regime de terrorismo estatal, responsável por um sem número de mortes que nem mesmo ele pode contabilizar, entregou aos milicos, inclusive, a própria mulher, grávida de sete meses. Ela e o bebê foram assassinados pelo regime. Passaríamos centenas de páginas aqui rememorando as atrocidades cometidas pelos carrascos da ditadura, mas sem concebê-los por monstros, mas por indivíduos forjados no cotidiano brutal de uma ditadura civil-militar de caráter capitalista.

Uma ditadura civil-militar

Tudo o que as ditaduras fizeram para além daquilo que se denominou Estado de Direito, a burguesia, nacional e estrangeira, foi partícipe. A ditadura eliminou garantias individuais e coletivas, cassou mandatos e direitos, censurou e proibiu, torturou, prendeu arbitrariamente, saqueou bens de seus inimigos políticos, quebrou toda e qualquer garantia política institucional, conferiu a seus agentes policiais e militares o poder de sequestrar, torturar, matar e promover desaparecimentos forçados. Enfim, jogou na lata de lixo aquilo que a própria classe dominante denomina “Estado de Direito”.

Todas essas ações foram financiadas e apoiadas logística e ideologicamente pelas burguesias nacional e estrangeira, mostrando que, para o processo de acumulação capitalista tanto faz o regime político. Aliás, a participação da burguesia nas ditaduras não foi privilégio da brasileira, mas de todos os processos ditatoriais latino-americanos. Exemplo marcante foi o do empresário dinamarquês radicado no Brasil, presidente do Grupo Ultra, Henning Boilensen (ver filme a seguir). Sua participação foi ativa (financiando, disponibilizando os veículos da empresa, presenciando as torturas) na OBAN (Operação Bandeirante[x]). Sua presença é memória “honrada” daqueles momentos, agraciada com nome de rua em São Paulo (CEP 05338-050). Memória oficial. A história também registra outros cúmplices, como empresários da Camargo Correa, da Folha de São Paulo, a Globo, de Roberto Marinho, e o Grupo Abril, de Victor Civita[xi], entre muitos outros. Na Argentina, a indústria de automóveis Ford, durante a ditadura cedeu seus espaços para que as forças repressoras espionassem seus funcionários, prendessem, custodiassem, torturassem, etc.
 

Aliás, por tudo o que fez e representou, a ditadura brasileira não foi só uma ditadura brasileira. Na conjuntura em que se deu, todo o Cone Sul da região (Argentina, Uruguai, Chile e Paraguai) também sofreu a sua. Todas elas atenderam, a partir de sua peculiaridade, às premissas da famigerada Doutrina de Segurança Nacional, doutrina forjada no contexto da Guerra Fria, capitaneada pelos EUA e sua Escola Militar das Américas, que exportava a ideologia do inimigo interno (comunista). Tal ideologia defendia os interesses dos setores dominantes locais e do capital estrangeiro, que deu frutos como, no Brasil, à Escola Superior de Guerra e ao famigerado Serviço Nacional de Informações. Páginas tristes da história e memória nacionais.

Nesse sentido mais amplo (internacional), as memórias que se entrecruzam na história não são só nossas (nacional), mas planetárias, pois tratam de uma construção a partir do processo de acumulação de capitais em escala internacional. O atesta a participação do grande capital estrangeiro assim como manobras militares internacionais, como a operação Brother Sam (força-tarefa da marinha estadunidense, retaguarda para o golpe); operativos de intelligentsia (CIA e FBI)[xii]; diplomática (OEA); ideológico (USAID – Umited States Agency for International Development); a Aliança para o Progresso (1964); A tutela do FMI; a Operação Condor (a aliança do terror, na qual os militares do Cone Sul se uniram para perseguir, torturar, exterminar mesmo aqueles dissidentes que se encontravam no exílio. Todo uma literatura dá conta disso.

Nesse entendimento dialético (memórias enquanto produção social e constructo político e ideológico e, portanto, lócus de conflitos e contradições), as ditaduras não se deram por uma questão cultural ou por um estalo fortuito das instituições militares brasileiras, que, num surto psicopático, resolveram implementar atroz regime. Elas foram uma variante da violência de classe, imposta pelo Estado burguês em favor da manutenção de sua dominação. Não à-toa se deram em sequência em quase todos os países da América Latina: Brasil, 1964; Chile, 1973; Argentina,1966 e 1976; Peru, 1962; Bolívia,1964, só para citar os do Cone Sul. Assim, lembrar ou esquecer são processos típicos da luta de classes quando explode, ideologicamente, no campo da memória.

Para finalizar, quero ressaltar que discutir o direito à verdade, à memória, a desvendar os esquecimentos acerca do processo ditatorial no Brasil é um exercício saudável e uma experiência importante, quer do ponto de vista social, intelectual ou político – que são uma só coisa – inda mais por sabermos viver num regime político de fragilidade imensa, constantemente ameaçado pelo autoritarismo, fardado ou não.



[i] JELIN, Elizabeth. Los trabajos de la memoria. 2ª ed. Lima: IEP, 2012.
[ii] LE GOFF. J. História e memória. Campinas: Editora da UNICAMP, 2003.
[iii] CALVEIRO, Pilar. Poder e desaparecimento: os campos de concentração na Argentina. Coleção estado de Sítio. São Paulo: Boitempo, 2013.
[iv] Acerca ver COMBLIN, Pe. Joseph. A ideologia da segurança nacional: o poder militar na América Latina. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.
[v] Ver “Em ano eleitoral, Congresso tem fila de projetos contra manifestante violento”. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2014/03/1424810-em-ano-eleitoral-governo-tem-fila-de-projetos-contra-manifestante-violento.shtml. Acessado em 31/03/2014.
[vi] Acerca ver: “PM mata seis vezes mais que Policia Civil em São Paulo”. Disponível em: http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/06/120601_direitos_humanos_policias_onu_lk.shtml. Acessado em 31/03/2014.
[vii] Ver: “Polícia do Rio mata 41 civis para cada policial morto”. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff1607200701.htm. Acessado em 31/03/2014.
[viii] Ver “Conselho da ONU sugere fim da Polícia Militar no Brasil”. Disponível em: http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,conselho-da-onu-sugere-fim-de-policia-militar-no-brasil,880073,0.htm. Acessado em 31/03/2014.
[ix] Acerca ver “O caratê e a ditadura, também entre nós”. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/folha/colunas/papodeesporte/ult1419u12.shtml. Acessado em 31/03/2014. Também “Esculacho na Bahia denuncia assassino de Lamarca”. Disponível em: http://levante.org.br/esculacho-na-bahia-denuncia-assassino-de-lamarca/. Acessado em 31/03/2014.
[x] Estrutura repressiva governamental que antecedeu o Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi).
[xi] Acerca ver “Empresários que apoiaram o golpe de 64 construíram grandes fortunas com dinheiro público”. Disponível em: http://www.revistaforum.com.br/blog/2014/03/empresarios-que-apoiaram-o-golpe-de-64-construiram-grandes-fortunas-com-dinheiro-publico/. Acessado em 31/03/2014.
[xii] Edgard Hoover, duas semanas após o golpe declarava, em jornal brasileiro, do orgulho da participação do FBI no processo. Acerca ver SODRÉ, Nelson Werneck. Vida e morte da ditadura: 20 anos de autoritarismo no Brasil. 2ª ed. Petróplis: Vozes, 1984. P. 65.

Igreja, entre o apoio e a resistência ao golpe civil-militar de 1964

"O poder político cívico-militar não poupou esforços para a cooptação da Igreja Católica pelo simples fato de que é a Igreja da grande maioria do povo brasileiro e de grande influência no mundo inteiro", diz Antonio Cechin.
 
Foto Sul 21

31/03/2014

"A maior parte da Igreja, em relação à quartelada cívico-militar de 1964, por causa principalmente de um anticomunismo doentio causado por uma consciência ingênua, não conseguia dominar e distinguir diferentes ideologias", comenta Antônio Cechin, em entrevista por e-mail à IHU On-Line, ao refletir sobre o papel daIgreja no Golpe Civil-Militar de 1964. "A 'marcha do Rosário pelas famílias em favor da paz' no Brasil, capitaneada pelo Padre Peyton, norte-americano, nas vésperas do Golpe, em defesa do país contra o comunismo que a mídia proclamava como iminente, encheu o largo da Prefeitura de Porto Alegre com milhares e milhares de pessoas. Essas marchas, feitas em todas as principais cidades do Brasil, foram o ato de massa que deu legitimidade e respaldo civil-religioso ao golpe que se estava gestando em nosso meio e que fora brecado alguns anos antes pelo Levante pela Legalidade do povo rio-grandensecomandado por Leonel Brizola", complementa.
Preso e torturado duas vezes, Antônio Cechin conta que a razão de suas detenções estava relacionada ao fato de ser, como ele mesmo diz, "um Catequista da Libertação". Cechin disse diversas vezes que deve sua vida a Dom Vicente Scherer, que lhe tirou do cárcere nas duas ocasiões, mas mantém um posicionamento crítico ao pensar nas figuras de Scherer e de Dom Hélder Câmara no contexto de 1964. "Para mim, Dom Vicente foi um Pastor zelosíssimo daquilo que hoje considero o modelo europeu de catolicismo que chegou da Europa através de Portugal em 1500. Modelo esse que se esgotou com o Concílio Vaticano II. (...) Dom Hélder foi o iniciador da Igreja do Brasil e com ele retornamos ao modelo de Igreja dos Primórdios, porque 'Deus é para nós o único absoluto, porém o absoluto de Deus são os pobres'", avalia.
Antônio Cechin é irmão marista, graduado em Letras Clássicas (grego, latim e português) e em Ciências Jurídicas e Sociais. Trabalha como agente de Pastoral em diversas periferias da região metropolitana de Porto Alegre, sendo também assessor de Comunidades Eclesiais de Base do Rio Grande do Sul, de catadores e de recicladores. Desempenha ainda a função de coordenador do Comitê Sepé Tiaraju e da Pastoral da Ecologia do Regional Sul III daCNBB. Escreveu Empoderamento Popular: Uma pedagogia de libertação (Porto Alegre: Estef, 2010). Publica periodicamente artigos nas Notícias do Dia do sítio do IHU.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Como foi a atuação da Igreja Católica quando houve o Golpe de 1964? De que maneira a instituição se posicionou em relação à situação política da época?

Antônio Cechin - Assim como o Golpe de 1964 não foi somente militar, mas sim cívico-militar, fazendo parte da sociedade civil também a própria Igreja teve certa participação. Paulo Freire, nosso maior educador brasileiro, criou a palavra conscientização, enriquecendo assim o vocabulário da língua portuguesa. Até Paulo Freire só falávamos em tomada de consciência. Porém, conscientização é infinitamente mais do que isso, porque Freire, em suas palestras, distinguia sempre quatro graus de consciência. Em ordem crescente: consciência mítica, empírica, ingênua e científica.
Quando se trata de análise da realidade é que mais se pode evidenciar se as pessoas o fazem com uma simples tomada de consciência ou se são pessoas conscientizadas, e até mesmo se pode identificar o grau de consciência de cada um e em que espécie de consciência navegam pelo método de alfabetização criado por Paulo Freire.
Enquanto não se adota o instrumento global de análise da realidade alinhavado particularmente por Marx - inventor do comunismo depois de destrinchar por completo o sistema capitalista em análise minuciosa -, embarca-se com a maior facilidade nos meios de comunicação do sistema capitalista que, desde muito tempo atrás, para salvar a pele da classe dominante do país, em face da extrema pobreza que o capitalismo gera, acaba-se caindo na ideologia da sociedade hegemônica. Cunhou-se, na época, até a expressão "comunista come crianças" para designar o horror causado aos que estão bem demais no mundo, por causa da riqueza que esbanjam, em relação a qualquer possibilidade de mudança para um sistema político de uma sociedade que não seja o capitalismo imperante.
A maior parte da Igreja, em relação à quartelada cívico-militar de 1964, por causa principalmente de um anticomunismo doentio causado por uma consciência ingênua, não conseguia dominar e distinguir diferentes ideologias. A "Marcha do Rosário pelas famílias em favor da paz" no Brasil, capitaneada pelo Padre Peyton, norte-americano, nas vésperas do Golpe, em defesa do país contra o comunismo que a mídia proclamava como iminente, em Porto Alegre, encheu o Largo da Prefeitura com milhares e milhares de pessoas. Essas marchas feitas em todas as principais cidades do Brasil foram o ato de massa que deu legitimidade e respaldo civil-religioso ao golpe que se estava gestando em nosso meio e que fora brecado alguns anos antes pelo Levante pela Legalidade do povo rio-grandense comandado por Leonel Brizola.
A Assembleia Geral da CNBB daquele ano de 1964, contra o voto de uma minoria conscientizada, agradeceu publicamente aos militares pelo fato de terem, através do Golpe, "salvado o país do comunismo" e pelo mesmo acontecimento realizaram uma cerimônia de ação de graças a Deus e a Nossa Senhora Aparecida, padroeira doBrasil.

IHU On-Line - Como o Concílio Vaticano II gerou reflexos na postura da Igreja no Brasil com relação ao Golpe?

Antônio Cechin - O golpe militar se deu durante o período em que se realizava o Concílio Vaticano II , que iniciou em 11 de outubro de 1962 com o discurso de abertura do papa João XXIII. Foi realizado em quatro sessões, e só terminou no dia 8 de dezembro de 1965, três anos depois de ter sido iniciado.
O poder político cívico-militar não poupou esforços para a cooptação da Igreja Católica pelo simples fato de que é aIgreja da grande maioria do povo brasileiro e de grande influência no mundo inteiro. Por isso, um dos primeiros atos dos golpistas foi fretar um avião, sem despesa nenhuma para a CNBB, para a totalidade dos bispos brasileiros se deslocarem até o Vaticano a fim de participar da sessão conciliar do ano de 1964. Conquistando os bispos, pensavam que também teriam o povo cristão do seu lado.
Dentro do avião e depois na Domus Mariae, em Roma, onde o episcopado brasileiro esteve hospedado durante mais de um mês de sessão conciliar, os bispos, apesar do entrecruzamento diário nas aulas conciliares, aproveitaram o ensejo para também eleger a nova direção da CNBB. A maioria conservadora do episcopado elegeu uma diretoria composta de bispos conservadores e como tais, tolerantes em relação ao Golpe.
Defenestraram simplesmente Dom Hélder Câmara, que era o secretário executivo da CNBB, logo ele que havia sido o fundador do órgão colegiado dos bispos, atendendo solicitação do Papa João XXIII. Essa deposição do "bispo vermelho", segundo o epíteto que lhe criaram os militares da ditadura, serviu de cobertura à proibição total que impuseram a toda a imprensa brasileira no sentido de jamais publicar algo sobre Dom Hélder, nem o próprio nome.
Também foram demitidos todos os assessores que faziam parte dos quadros da Conferência, escolhidos por Dom Hélder. Haviam escolhido para novo presidente Agnelo Rossi e, para o setor dos leigos, o cardeal Vicente Scherer. De volta ao Brasil, o cardeal Scherer fechou a Ação Católica Brasileira especializada, que reunia a fina flor da militância católica totalmente contrária ao Golpe e que sofreu o impacto maior da ditadura, transformando vários deles nos primeiros mártires do regime.
Exemplo emblemático foi o assassinato do Padre Henrique Pereira Neto, emRecife. Ele era Assessor da Juventude Universitária Católica - JUC naDiocese de Dom Hélder. Não podendo assassinar o bispo Dom Hélder, o militares mataram o sacerdote mais engajado nos trabalhos pastorais.
Em contraposição, a postura da primeira direção da CNBB, diretoria organizada por Dom Hélder, teve o conteúdo central do Concílio aprovado dentro da linha progressista João XXIII - Helder Câmara. O Concílio na realidade teve dois encerramentos: o primeiro, na grande Praça São Pedro doVaticano, e o segundo, no recôndito das Catacumbas do início do cristianismo. Perseguidos os cristãos pelos imperadores romanos, o povo fiel se reunia secretamente nos subterrâneos da cidade. Aí também enterrava seus mártires. Esse segundo encerramento organizado por Dom Hélder Câmara reuniu em torno de uma centena de bispos do mundo inteiro e passou para a história com o nome de Pacto das Catacumbas.
Estabeleceram entre si um pacto destinado a transformar a Igreja universal em autêntica Igreja Pobre com total opção pelos pobres. Com o Pacto das Catacumbas Dom Hélder profetizou a leva de mártires que a Igreja do Brasil e de todo o continente latino-americano forneceria para enriquecimento do martirológio da Igreja Católica.

IHU On-Line - O que foram as fichas catequéticas e por que incomodavam tanto os militares? Essa "Catequese Nova e Libertadora", como o senhor mesmo definiu e propôs, foi a razão de suas prisões?

Antônio Cechin - Foi no início da década de 1950 que Dom Hélder, quando bispo auxiliar do cardeal do Rio de Janeiro, começou um discurso inteiramente novo. Mirrado que era Dom Hélder fisicamente, fazia discursos tonitruantes que ecoavam pelo mundo inteiro. Com argumentos irrefutáveis, tomando até Jesus Cristo, Filho de Deusencarnado como modelo da opção pelos pobres, pregava a obrigação que tínhamos para com os "últimos" que compõem a imensa maioria da população brasileira em situação de fome e miséria.
Aconteceu então o mergulho da Igreja nas periferias, nos grotões dos campos interioranos e nos meios urbanos mais afastados dos centros das cidades. Foi a chamada Inserção da Igreja nas periferias, empenhada na organização das Comunidades Eclesiais de Base entre os pobres. Trabalhava-se em duas dimensões, a exemplo de Jesus de Nazaré, que dedicava grande parte de seu tempo à pequena comunidade dos 12 apóstolos, com a finalidade de servirem de fermento das massas ou multidões.
Paulo Freire, militante cristão da diocese de Dom Hélder na cidade de Recife, inventou também seu método de educação começando com essa imensa população mais abandonada e analfabeta. Esse método se chama de"Educação para a Prática da Liberdade" ou "Pedagogia do Oprimido". Pelos grotões dos campos, no interior, e na cidade escalando morros, buscavam-se: as "palavras geradoras" para a alfabetização e os "temas geradores" para a educação.
As Fichas Catequéticas, com base no método Paulo Freire, inauguraram no Brasil a chamada Catequese Libertadora, à qual se seguiu a Teologia da Libertação. Começou-se com Fichas a serem utilizadas nas aulas de Religião das escolas religiosas e leigas ou públicas e estatais, porque todas as escolas podiam optar pelo ensino religioso, que era facultativo. Num segundo momento, estendemos essa Catequese Libertadora às próprias Comunidades de Base que se constituíam na nova base da Igreja e também da nova sociedade. A Catequese Libertadora para a América Latina havia sido urgida na grande Assembleia do episcopado latino-americano realizado na cidade de Medellín, Colômbia, no ano de 1968.

Material Subversivo


No ano de 1969, em plena ditadura, os militares de plantão emBrasília, a cada novo ano, sempre na semana que precedia ao 1° de abril, celebravam em todo o Brasil o aniversário da "revolução". No ano de 1969, no dia reservado ao Ministério da Educação, apresentou-se na televisão o próprio titular da pasta, o Coronel Jarbas Passarinho.
Em longa palestra, com nossas Fichas Catequéticas em punho, lia partes, comentando sempre. Até o final, acabou lendo por inteiro duas aulas do feixe de fichas correspondentes à primeira série ginasial, intituladas Rumo à Terra Prometida. Encucado estava o general com essa tal de Terra Prometida, porque a linguagem de todas as Fichas, sempre segundo ele, propositalmente era nebulosa, quando não linguagem cifrada. Que Terra seria essa? Interrogava a si mesmo e aos telespectadores. Não seria o paraíso comunista?... Fazendo ilações de todo o tipo, ao fim e ao cabo, asseverou: Este material é altamente subversivo. Lastimava que colégios públicos e católicos tivessem a coragem de utilizar tal material didático com vistas a comunizar o Brasil, corroendo inteiramente o futuro da juventude. Arrematou referindo-se a Colégios Católicos particulares que até subvenções em dinheiro do governo recebiam anualmente e cometiam o pecado de ingratidão utilizando esse material em salas de aula.
Nós, os autores, ficamos estarrecidos diante do que poderia nos acontecer. Naturalmente a corrida atrás das Fichasse deu no mesmo instante, a começar pelos biófilos ou amantes da Vida, como um precioso e raro material para ler e conhecer em profundidade, motivados que estavam pela ira que tinham contra os militares, e, também, não poucos, viram no fato uma glória para a Igreja da Catequese e da Teologia da Libertação. Mas a procura se deu também pelos necrófilos, ou amigos da morte; estes tendo a polícia como testa de ferro, bateram em todos os colégios que utilizavam nosso material "altamente subversivo" a fim de recolher tudo.

Catequese da discórdia


Nossas Fichas, naturalmente, como Catequese oficial da Igreja tinham o "nada obsta" (nihil obstat) da autoridade eclesiástica, bem como o "imprima-se" (imprimatur) do Arcebispo Metropolitano de Porto Alegre. O rebu causado pelas Fichas, simples, modestas e inocentes que se nos afiguravam, foi de arrepiar. Todo mundo, através da mídia falada, escrita e televisionada achou por bem entrar com seu pitaco sobre o assunto. Gente ilustre e gente menos ilustre. Professores e religiosos. Bispos e padres. Sociólogos e psicólogos. Todo mundo procurou entrar com sua colher torta no assunto, fosse entendido ou não em Catequese ou Pastoral.
O grande teatrólogo considerado o maior, Nélson Rodrigues, se ocupou do assunto a fim de execrar o nosso material didático. Gustavo Corção, o grande escritor católico, não se conteve e teceu comentários altamente destrutivos em relação à "Igreja de Passeatas" à qual ligava nosso material escrito.

Interrogatório


A Nunciatura me chamou para interrogatório, e nossas Fichas foram parar no Vaticano. Minha prisão e tortura, ao lado de outros fatores, estou convencido de que aconteceram porque fui um Catequista da Libertação. Aliás, tinha sido eu que apresentara, em Medellín, no Congresso Internacional de Catequese, poucos dias antes da Assembleia dos Bispos, os Princípios Orientadores, bem como o método dessa nova catequese libertadora, própria para "países subdesenvolvidos", como eram caracterizadas na época, as nações do continente latino-americano. Nessa apresentação em Medellín tive a assessoria do teólogo da libertação Hugo Assmann e o apoio de toda a Equipe de Catequese da CNBB.


IHU On-Line - Em diversos momentos o senhor já manifestou gratidão a Dom Vicente Scherer, que lhe salvou a vida quando foi preso em duas ocasiões. Qual a importância de Scherer no contexto do regime?

Antônio Cechin - Dom Vicente Scherer foi meu amigo a vida inteira. Conheci-o quando era pároco na Igreja São Geraldo. Quando morreu seu antecessor Dom João Becker, monsenhor Vicente Scherer, simples sacerdote, foi eleito pelo cabido da Arquidiocese como Vigário Capitular na arquidiocese vacante. Quando menos se esperava, a Santa Sé o escolheu para o episcopado e o nomeou logo como Arcebispo. De simples padre, Dom Vicente passou a arcebispo.
Como sacerdote e pároco que comecei a conhecer e depois como arcebispo, Dom Vicente foi sempre um pastor muito zeloso. A paróquia que ele dirigia, de São Geraldo, tinha um dos melhores grupos de jovens de toda a arquidiocese que até forneceram vocações sacerdotais gestados em seu seio. Um exemplo emblemático do extraordinário zelo apostólico aconteceu uns anos antes da ditadura militar no Brasil.
Francisco Julião, advogado nordestino, começou a organizar a população pobre do nordeste para a Reforma Agrária. A mídia dava a impressão que Julião havia "enfogueirado" as regiões mais pobres do Brasil. Dom Vicente, em reunião com clero e religiosos, declarou que o comunismo estava incendiando o Norte-Nordeste do Brasil e que dentro em pouco o comunismo desceria até o Rio Grande do Sul, e nós, como Igreja, perderíamos nossos viveiros vocacionais de sacerdotes e religiosos fornecidos pelas catolicíssimas famílias interioranas.
Imediatamente partiu para a ação. Visitou os párocos de toda a Arquidiocese, dando ordens a que cada pároco convidasse todos os colonos do município a fim de criarem em todos o seu sindicato rural. Com essa leva de sindicatos rurais, encarregou o bispo auxiliar D. Edmundo Kunz para ser o presidente da Federação Agrária Gaúcha - FAG. Mais tarde, a FAG se transformou em Federação dos Trabalhadores da Agricultura - FETAG.

IHU On-Line - Qual foi a postura de Dom Vicente em relação aos religiosos católicos presos e aos demais presos?

Antônio Cechin - No dia em que fui preso, depois de a quadra em que eu estava com meus manos ser cercada com camburões em todas as esquinas e de me introduzirem no DOPS, a casa dos meus manos foi devassada peloDiretor do DOPS, que se demorou no apartamento das 16 horas até às 22 horas, esmiuçou até a cesta do lixo para juntar papeizinhos rasgados. Saindo do apartamento com os auxiliares, levou mais de 100 livros da biblioteca, certamente por achá-los subversivos. Alguns até eram contra o comunismo. Minha mana, em prantos,  imediatamente correu até a cúria metropolitana a fim de pedir o auxílio de D. Vicente. Da primeira vez em que estive na cadeia, acabei ficando apenas dois dias incompletos para, ao final do segundo dia, o próprio secretário de Segurança do Estado,Coronel Jaime Mariath, em seu próprio automóvel - ele de motorista e eu de único passageiro -, levar-me até a cúria, moradia de D. Vicente, e a ele me entregar.

IHU On-Line - Aliás, podemos entender as figuras de Dom Hélder Câmara e Dom Vicente Scherer como antípodas? No que se assemelhavam e no que se diferenciavam?

Antônio Cechin - Os dois, Dom Hélder e Dom Vicente, tinham posições muito diferentes em relação não só à ditadura militar, mas também em relação à Pastoral, à própria teologia e à Catequese.
A qualidade boa de Dom Vicente é que não era "espiculão", como diziam os jovens da JEC com os quais eu trabalhava. Isto é, ele deixava trabalhar sem procurar vigiar ninguém. Quando, em um colossal êxodo rural, chegaram a Canoas nada menos de 13 mil operários para a construção do Polo Petroquímico de Triunfo, enchendo todas as periferias da cidade, em beiras de ruas e estradas. Então, no Natal de 1979, ocupamos os latifúndios pertencentes aos herdeiros do sesmeiro Matias Velho, local que o padre vigário não botava o pé, considerado por ele como invasão e roubo de terra do próximo.
Na visita que Dom Vicente fazia uma vez a cada ano aos padres, ele me mandou avisar o vigário que, no domingo seguinte, o próprio Dom Vicente iria pessoalmente celebrar a missa para os "invasores" na capela que havia sido levantada em mutirão. Mandou ainda que eu advertisse o pároco para que estivesse pessoalmente ao lado dele na celebração.

Pastor zeloso


Para mim, Dom Vicente foi um Pastor zelosíssimo daquilo que hoje considero o modelo europeu de catolicismo que chegou da Europa através de Portugal em 1500. Modelo esse que se esgotou com o Concílio Vaticano II. Dom Hélderfoi o iniciador de um novo modelo de Igreja tipicamente latino-americano, aprovado no Concílio Vaticano II e a partir desse evento, convocado por João XXIII. A este novo modelo de Igreja deve corresponder uma nova catequese, uma nova teologia, um novo tipo de vida, religião, etc. Estamos hoje bem avançados no mundo a ponto de Papa Francisco ser hoje o primeiro papa do nosso novo modelo, da Igreja da Catequese e Teologia da Libertação.

Dom Vicente foi um excelente sacerdote e arcebispo em condições de dar um salto, porque já diziam os latinos, "a natureza não dá saltos" (natura non facit saltus). Dom Hélder foi o iniciador da Igreja do Brasil e com ele retornamos ao modelo de Igreja dos Primórdios, porque "Deus é para nós o único absoluto, porém o absoluto de Deus são os pobres", e John Sobrino diz que nossa missão como cristão é de despregar da cruz os pobres de hoje, na qual estão crucificados.

IHU On-Line - Qual foi a importância dos movimentos de resistência popular capitaneados pela Igreja, organizados pela Ação Católica?

Antônio Cechin - A caminhada dos movimentos de resistência da Ação Católica Epecializada, isto é, dos jovens agricultores, estudantes secundaristas, independentes (profissões liberais), operários e universitários, apesar de ter sido uma caminhada de muito sofrimento, foi também de muita alegria e de grande entusiasmo. Há uma frase que ouvi na França e que nunca esqueci: "Quando a juventude perde o seu entusiasmo, o mundo bate os dentes de frio". As saudades desses movimentos de muita militância são enormes. Foram a base da Igreja da Libertação, com suas espetaculares CEBs , nova base de Igreja e de nova sociedade; foram a base do Partido dos Trabalhadores, que foi fundado por esses movimentos e só depois é que se somaram outras forças a esse partido que transformou o Brasilmedieval em que vivíamos um Brasil da modernidade.

É uma pena que os percalços da Caminhada, em grande parte devido ao hiato na continuidade atribuído aos dois papas: João Paulo II e Bento XVI, nos tenha interrompido o processo, porque lembro quando foi dado por encerrado oVaticano II, lendo os documentos produzidos, dizíamos: "o Vaticano está lindo, maravilhoso porque ajustou a Igreja Universal ao que até hoje construímos no Brasil. Absolutamente nada de novo acima do que nós conseguimos estar vivendo aqui".

Saudade



Não raro me encontro com jovens daqueles tempos memoráveis, hoje gente de idade, e não encontrei um só que não esteja com saudade com expressões do gênero: "A JEC me deu embocadura para a vida inteira! Que maravilha!". O mesmo não acontece com quem foi de movimentos outros de caráter conservador, que se ocupavam exclusivamente do religioso propriamente dito sem abertura alguma para o social, que acima caracterizamos como do modelo vindo da Europa no início do Brasil propriamente dito. Pergunto hoje a alguém: Foste cursilhista no passado, que tal?! Como vês hoje aqueles tempos e com aqueles movimentos? Em geral todos me respondem que têm vergonha de ter perdido tempo com aquele tipo de Igreja.

IHU On-Line - Como avalia o trabalho da Comissão Nacional da Verdade? Por que resgatar a memória desse período é, mais que um gesto político, uma maneira de valorizar a liberdade e a vida?

Antônio Cechin - Acho espetacular que tenhamos chegado finalmente à Comissão Nacional da Verdade, apesar do rugir de dentes das forças armadas, hoje bem aposentadas monetariamente, mas com as consciências sempre mais indormidas e sobressaltadas. Quem não tem história, não viveu. Apenas vegetou. Sem processo histórico, não há nem salvação, porque a História da Salvação é sinônimo de Bíblia, e o nosso Deus dos cristãos é um Homem, oJesus de Nazaré, com uma Caminhada Histórica, a mais fantástica e inimaginável do mundo.